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terça-feira, 18 de junho de 2013

Belém do Pará na contramão do Brasil

Começo essa postagem admitindo que errei ao fazer algumas interpretações sobre o Movimento Passe Livre, na semana passada. Não errei exatamente como o Arnaldo Jabor, que em uma semana meteu o cacete no movimento em rede nacional de televisão e na outra pediu desculpas via rádio. Na verdade eu analisava em uma conversa casual na minha casa de que eu achava totalmente válidas as manifestações ocorridas, até então, em São Paulo, mas que o aumento da passagem de ônibus não justificava tanto vandalismo, como se viu pela televisão.
Puro engano, meus amigos. Dois enganos na verdade. O primeiro deles foi achar que os protestos eram apenas por 20 centavos e o segundo por acreditar no que eu vi pela tv e achar que o vandalismo começou pelos manifestantes. Temos inúmeras provas de que a culpa de tamanha depredação não foi, em sua maioria, dos manifestantes (prova 1, prova 2, prova 3, entre outras).
Qualquer um que passar meia hora na internet vai ver inúmeras análises sobre como e porquê tudo isso está acontecendo no Brasil. A minha é a de que tínhamos já há algum tempo várias condições necessárias que geraram toda essa insatisfação popular. Há muito nos deparamos com inúmeras denúncias de corrupção dos mais diversos partidos, assim como o mal gasto do dinheiro público, os sucessivos aumentos dos salários dos deputados, Feliciano na Câmara, Calheiros na presidência do Senado, altíssimos impostos, a precarização dos serviços prestados pelo Estado, o abuso das grandes empresas privadas à nossa saúde, meio ambiente e bem estar. Se não houvesse tanta insatisfação anteriormente, a Dilma não teria pego uma vaia tão grande no sábado passado. Porém até mesmo a Copa das confederações, a Copa do Mundo e as Olímpíadas não foram suficientes para gerar o estopim do que está acontecendo. Na verdade a gota d'água não foram nem esses 20 centavos em São Paulo: a culpa do estopim foi da grande imprensa nacional e da polícia militar de São Paulo.

Ao lado de Joseph Blatter, Dilma é vaiada na abertura da Copa das Confederações

Os grandes responsáveis pelos protestos adquirirem caráter nacional foram o Governador Geraldo Alckmin e o Prefeito Fernando Haddad, ambos de São Paulo (estado e capital). Chamar os manifestantes de baderneiros e dizer que não ia negociar com eles foi um tiro no pé. A grande imprensa também teve contribuição vital para a geração do estopim, quando na quinta-feira, dia 13/06, pediu em seus editoriais uma ação mais enérgica dos policiais, o que culminou até então na noite mais violenta dos protestos. Pronto, agora sim o estopim fora aceso. Os jornais mudaram completamente de estratégia depois da quinta-feira, com vários repórteres feridos nos confrontos e os inúmeros vídeos feitos pelos próprios manifestantes denunciando a truculência da polícia paulista. Ficou claro que eles perderam a batalha da informação. Vale ressaltar que o meu vídeo preferido é esse a seguir:


Mas o vídeo que o grupo denominado Anonymous fez com a nova música d'O Rappa foi sensacional também:


Por falar nessa música, a Fiat resolveu tirar o comercial do ar depois dela ser usada nos protestos. Ou seja, meus amigos, toda aquela insatisfação que já ocorria, somada com o aumento da tarifa de ônibus, mais a reação dos governantes e a truculência dos policiais geraram as manifestações que estamos vendo Brasil a fora. Ontem mais de 50 protestos foram contabilizados em diferentes cidades do Brasil. Houve tentativa de invasão da sede do governo de São Paulo, do Rio de Janeiro e Paraná. Em Brasília os manifestantes tomaram o Congresso Nacional. Não se via algo parecido no Brasil desde o movimento dos "Caras Pintadas", que pedia o Impeachment do então Presidente Collor, há 21 anos atrás.

Brasília tomada por manifestantes, dia 17/06/2013.

Ontem também houve diversos abusos, principalmente no Rio de Janeiro, que reuniu 100 mil pessoas nos protestos. Não deixem de ver o vídeo a seguir, não consigo pensar em outra coisa senão uma guerra civil:


Como o movimento se tornou nacional, aqui em Belém nos mobilizamos também, tanto como forma de apoio aos demais estados como pra reinvindicar nossas próprias demandas. "Pare Belo Monte!", "Vem pra rua", "Copa do Mundo não, queremos Educação!", entre outros cânticos foram entoados. O protesto reuniu pelo menos 13 mil pessoas e foi COMPLETAMENTE pacífico, de ambos os lados. Muitos jovens, que fazem universidade e até que ainda estão no Ensino Médio estavam presentes, assim como outros setores da sociedade civil, como o movimento de mulheres, associações específicas de estudantes, e alguns poucos militantes de partidos políticos, como podemos ver nesse vídeo lindo, como todo mundo cantando o hino nacional.



Pelo Facebook, eu vi muitas manifestações de agradecimento à polícia militar do Pará, por terem acompanhado todo o trajeto da manifestação, sem em nenhum momento ter feito qualquer tentativa de intimidação ou algo do tipo. Muitos se surpreenderam com essa posição, ainda mais com uma instituição que ficou marcada pelo massacre que ocorreu em Eldorado dos Carajás há 17 anos atrás (do então governador Almir Gabriel, que era do mesmo partido do atual governador Simão Jatene, do PSDB), além de toda violência vista nos outros estados. Eu confesso que desconfio e muito da polícia do nosso estado (já peguei porrada sem motivos, junto com meu irmão e amigos, depois de um jogo do Clube do Remo, no Mangueirão), mas realmente foi muito boa a posição deles na nossa manifestação. Ainda assim, eu não me surpreendi com isso: seria no mínimo idiotice a polícia sentar o cacete na gente, visto a grande repercussão do que aconteceu nos outros estados. Duvido muito se a posição seria a mesma se esse nosso protesto tivesse ocorrido na semana passada, junto com o início dos protestos em São Paulo.
É justamente por isso o motivo do título dessa postagem. Belém vai, graças a Deus, na contramão no resto do Brasil, justamente pelo fato de não ter havido violência ontem. Posso estar muito errado (e espero estar), mas acho sinceramente que o caráter pacífico do nosso ato de ontem vai fazer com quem as pessoas acalmem os ânimos e que os demais protestos sejam menores. O governo do Estado e a Prefeitura (que são governados pelo mesmo partido) não tem nenhum interesse que o que tá acontecendo nos outros estados aconteça aqui também, e passaram a seguir a nova estratégia da mídia nacional de elogiar e tornar válidas as manifestações, e canalizar tudo que há de ruim para o governo federal.
É fácil ver a mudança da grande mídia nacional. Como vimos anteriormente, o Jabor mudou completamente de discurso, mas uma análise mais profunda mostra a tentativa de fazer tudo se voltar contra o governo federal. Na verdade não acho que ele está tão errado, realmente o governo federal tem muitos problemas de gestão, e a Copa do Mundo é um enorme exemplo disso, mas daí a dizer que a Dilma ou o PT são os únicos responsáveis pelo problemas da nação, é demais. Precisamos tomar cuidado pra mídia não nos manipular e tentar conduzir os nossos protestos. A falta de liderança do movimento, justamente por ser feito por várias pessoas que resolveram se unir, pode facilitar essa nova tentativa de manipulação da mídia. Precisamos urgentemente discutir os rumos do movimento, chamar mais pessoas pra causa e não parar de lutar pelos nossos direitos.
Belém do Pará, que deu um exemplo pro Brasil, vamos à luta!

sábado, 18 de agosto de 2012

Sacramenta: um bairro de lutas e de muita história.

Moro numa parte do bairro da Sacramenta que anos atrás era quase que completamente alagada. É o que chamamos em Belém de "baixadas": regiões da cidade que ficam abaixo do nível dos rios que a circundam. Minha casa, assim como a grande maioria, era de madeira, construída sobre o Canal da Pirajá, anteriormente um dos muitos igarapés que atravessavam a capital paraense. Quando chovia as águas do igarapé invadiam nosso banheiro e por pouco não tomavam conta do andar térreo. Durante o inverno a situação piorava. Tínhamos que ir para o trabalho com os sapatos nãos mãos, pisando na lama até o momento em que parávamos em alguma casa mais adiante para lavarmos os pés e seguirmos viagem.

Baixada de Belém - Bacia do Una
No dia que o meu filho Alexandre completava cinco anos caiu uma chuva torrencial que alagou completamente a Rua Nova, onde moramos até hoje. A altura da água chegava no joelho.  Tentei persuadir a Regina a mudar o local da festa para a casa de uma das minhas irmãs, mas ela não aceitou dizendo que a comemoração tinha que ser na nossa residência. Ela chorava copiosamente, pois temia que ninguém participasse da comemoração. Qual não foi a nossa surpresa quando os/as amigos(as) começaram a chegar, com suas calças e saias suspensas até o joelho, sapatos nas mãos. Foi um momento de grande alegria, daqueles inesquecíveis.

No local o Hotel Regente, na década de 60 foi a sede
da União Acadêmica Paraense (UAP).
Seu prédio e teatro foram destruídos sob
 o comando do coronel José Lopes de Oliveira
Durante a ditadura militar e principalmente na década de 1980 se constituíram fortes movimentos sociais urbanos que lutavam por melhores condições de vida da população da periferia. A Sacramenta era um dos bairros mais mobilizados à época. Haviam três grandes lutas se desenvolvendo no período:  1) Na Área da Aeronáutica (desde o início do Canal da Pirajá, na Av. Dr, Freitas, até área que se convencionou chamar Malvinas, às margens do Canal São Joaquim). Aliás, nesta última os nomes das ruas são de pessoas que estiveram à frente das lutas pela  permanência da população no local, ou das que apoiaram as ações do antigo Centro Comunitário Primeiro de Setembro: Claudio Bordalo, Carlos Augusto dos Santos Silva (o Guto), Raimundo Jorge Pires Bastos, Pe. João  Beuckenboon, Dr. João Marques e outros; 2) Na Área Promorar (Canal do São Joaquim) contra as tentativas do Exército de remanejar compulsoriamente centenas de famílias para o que é hoje o bairro Providência, próximo ao aeroporto, e; 3) Na área denominada Ferro Costa, por conta da família (latifundiários urbanos) que se dizia proprietária da região onde moravam cerca de 5.000 famílias.

Na Área ferro Costa travamos  intensas disputas com Jader Barbalho e seus aliados, que incluía naquela época a militância dos Partidos Comunista Brasileiro (PCB) e do Brasil (PC do B). Jader e seus assessores mais próximos estimularam gangues de arruaceiros a nos enfrentar nas ruas. Então, era muito comum os choques violentos, pois eles nos atacavam quando desenvolvíamos a mobilização da comunidade para lutar pela desapropriação da área e a titulação das posses. É impossível não lembrar de pessoas valorosas  que se empenharam de corpo e alma nessa luta: seu Laudemar, Carlito Aragão, Alberdan Batista, Marciana, Irene, os/as integrantes do Movimento Jovem da Passagem "E"/MOPAE (Carlinhos Matos, Nei, Neia, Souza, Rosa e outros) e da Juventude Unida na Caminhada pela Libertação do Povo/JUCALP (Domício, Cabinho, Nana, Maria, Rosa, Lucia, Lucica, Graça e outros), ambos grupos jovens da Paróquia de São Sebastião que, inspirados na Teologia da Libertação, se integravam às lutas sociais. Também é preciso lembrar da participação ativa da base social dos Centros Comunitários Irmãos Unidos e Boa Esperança.

Nas manifestações organizadas pela Comissão dos Bairros de Belém (CBB), como as grandes passeatas pelas ruas do centro, as organizações comunitárias da Sacramenta estavam entre os destaques. Chegávamos fazendo muito barulho: "Aguenta, aguenta, aguenta, chegou a Sacramenta!", bradávamos com todas as forças. Íamos em passeata do bairro até o centro para nos juntar aos outros movimentos sociais.

Na década de 1980 criamos a partir da antiga Área Ferro Costa o Movimento pela Urbanização Popular (MUP), que tinha como objetivo estratégico a urbanização da área influenciada pelo Canal da Pirajá. Moradores e moradoras como a Doninha, seu João Trindade, dona Lucinha, dona Maria, dona Rosa, Gilberto Saldanha, Regina Ferreira, seu Benedito, Jorge Cabeção, seu Aluísio e esposa, Pedro Peloso, Varela e outros(as) merecem todas as homenagens pelo que fizeram.

Não é possível negar a contribuição do MUP para a constituição posterior do Movimento em Defesa do Projeto de Macrodrenagem, que reunia centros comunitários de diferentes bairros da Bacia do Una, bem como do Movimento em Defesa dos Projetos de Saneamento, que incorporava entidades de Ananindeua que atuavam nas áreas onde estavam sendo (mal) executados o PROSEGE e o PROSANEAR, projetos de saneamento financiados pelo Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) e Banco Mundial (BIRD), respectivamente.

Na luta para melhorar as condições de vida na nossa área realizamos mutirões, assembleias, ocupação da Secretaria Municipal de Saneamento e muitas outras iniciativas. Lembro da vez em que Carlinhos Matos, Gilberto Saldanha, Domício Nunes e eu entramos em baixo do piso da retífica que se localizava bem no encontro dos canais da Pirajá e do Galo, bem ali no bairro do Acampamento, próximo à famosa ponte do Galo. Pois bem, tivemos que tomar "alguns" goles de cachaça pra enfrentar a empreitada. Era tanta sujeira, excrementos (merda, mesmo!), madeira, lata enfim, muito lixo, que impedia que as águas do Pirajá corressem livremente. O que era um grande problema quando se juntava maré alta com chuva torrencial. Tínhamos à época em torno de 20 anos. Lembranças da juventude...

É o que vejo a partir da minha casa
Hoje, olho do terraço da minha casa e vejo prédios altíssimos "se aproximando" da área em que moro. Vejo a população de menor poder aquisitivo saindo do local, assim como as casas de madeira sendo substituídas pelas de alvenaria. Uma parte considerável da atual população nem deve saber o que centenas de moradores e de moradoras passaram para garantir que a área fosse urbanizada. Devo confessar, porém, que tenho orgulho do que eu e tantos(as) outros(as) fizemos. Sinto que uma parte de mim está em cada rua, nesse pedaço de chão que, infelizmente, o capital imobiliário que tomar para si. Tudo sob as bençãos de Dudu e sua trupe.

terça-feira, 7 de agosto de 2012

Um tiro, outro tiro e mais uma vida que se foi...

Emerson vestido com a camisa do
"mais querido"
Ele tinha apenas 29 anos. Pai de três filhos do primeiro casamento e mais uma menina do segundo. Na noite do sábado, após deixar dois sobrinhos na casa do irmão, foi covardemente atingido por duas balas na nuca. Segundo dizem, o criminoso ainda efetuou mais dois disparos bem próximo do rosto, mas o revólver travou. Logo após o assassinato fugiu com o comparsa numa bicicleta O nome da vítima: Emerson.  Esposo de uma das minhas sobrinhas.

Local do crime: área próxima ao Canal do São Joaquim, na Sacramenta. A área é considerada "zona vermelha" pela Polícia Militar dada a intensidade de diferentes modalidades de  violência: roubos, assassinatos, furtos, agressões, estupros etc.

A família ainda levou a vítima para o Pronto Socorro Municipal da 14 de Março, mas a mesma já chegou sem vida. E mesmo que estivesse viva fatalmente padeceria numa maca no corredor por causa da superlotação e da greve dos(as) funcionários(as).

Emerson era pai da minha linda sobrinha-neta Isabelle, carinhosamente chamada de "Bebelle". Ela tem apenas três anos. Não verá mais o pai, que era uma figura do bem. Torcedor do Remo, trabalhador, alimentava planos para a casa nova. Era funcionário da CTBEL e à noite fazia "bicos" como mototaxista. O corpo estirado no chão ficou encharcado de sangue.

Bebelle e meu filho Alexandre, o "padinho".
Corpo aliás que só foi entregue à família para o velório na tarde do domingo, aumentando ainda mais o sofrimento de todos(as) que o aguardavam para as últimas homenagens. Durante o período que esperamos pelo corpo fiquei observando tudo o que ocorria à minha volta.

Da casa dos pais do Emerson dá pra ver a caixa d'água do Conjunto Paraíso dos Pássaros, assentamento que recebeu as centenas de famílias remanejadas compulsoriamente pelo Projeto de Macrodrenagem da Bacia do Una. De paraíso, apenas o nome. Ironia tucana para uma situação precária. Entre a casa onde me encontrava e a caixa d'água, muito mato, muito lixo, muito abandono. Por várias vezes vi pessoas levando seu lixo e o jogando na beira do canal. Também vi urubus, gatos, cães e um idoso revirando os restos. Sim, um homem de idade avançada catando sobras.

Também vi muitas crianças. Algumas claramente desnutridas, magras, de baixa estatura, cabelos desgrenhados, brincando na vala com suas "embarcações", ou num velho velocípede "incrementado" que levava sempre um pequeno ser a toda velocidade. Entre as brincadeiras as que envolviam tiros e revólveres faziam parte do "cardápio" da imaginação mirim.

Vi pré-adolescentes sentados embaixo das torres de alta tensão ouvindo o "treme" nos seus celulares, todos requebrando animadamente ao som dos mais novos sucessos do gênero. Um deles me chamou especial atenção porque se parece muito com um jovem que vi crescer, que era amigo dos meus filhos, que me chamava de tio e que sempre demonstrou muito carinho por todos aqui de casa. Agora, está confinado num presídio. Confesso que aquela situação me provocou uma forte dor no peito: de aflição, de tristeza, de revolta, de vergonha pelo que estamos fazendo, por ação ou omissão, às nossas crianças. Lembrei da licitação do governo estadual que pagou cerca de R$ 63,00 por uma xícara de café. Enquanto isso, não há coleta de lixo, não há creches, não há muita esperança ali, às margens do Canal São Joaquim.

Periferia de Belém
Conversei com o filho mais velho do Emerson. Uma figurinha centrada nas ideias, mas completamente desamparada, perdida, naquele momento. Estava perto quando ele falou sobre os tiros que ouviu, do medo que sentiu por lembrar que o pai saíra momentos antes, da queda da cama com o rosto no chão quando alguém bradou: "mataram o teu pai". Também ouvi a filha narrar as condições em que a mãe encontrou o corpo no chão. Foi de cortar o coração.

Quando o corpo finalmente chegou a situação ficou dramática: mãe, avó, irmãs, amigos(as) desmaiaram quase que ao mesmo tempo. Foi um corre-corre. Eu e meu filho carregamos a avó para a casa ao lado. Outros socorreram as demais. Vi a mãe do Emerson abraçar minha sobrinha, lamentando a dor que aquela morte lhe provocava.

Foi um domingo terrível. Nem vou falar sobre o estado do corpo. O que me dói até este momento que escrevo é lembrar que não vamos mais ver o Emerson, que ele não vai mais ao campo com a gente assistir os jogos do Remo, que a filhinha dele dificilmente vai lembrar dos momentos que viveram juntos.

Um tiro, outro tiro e uma vida que se foi... Um número na estatística. Revoltante!

sexta-feira, 27 de julho de 2012

Motivos para apoiar Edmilson Rodrigues: Parte I.

Ao longo do tempo o PT buscou tirar algumas lições das suas diversas experiências administrativas espalhadas pelo país. Tal conhecimento ficou conhecido como o Modo Petista de Governar. Os dois eixos indicados como os principais diferenciadores das administrações petistas em relação às demais eram a participação popular e a inversão de prioridades.

Modo Petista de Governar
A participação popular se mostrou importante para a democratização do Estado e o controle social não somente sobre as políticas governamentais, mas também no que diz respeito à atuação da iniciativa privada e seus efeitos sobre a sociedade. O PT incentivou a constituição de conselhos a fim de favorecer a gestão compartilhada, bem como de instrumentos democráticos como o Orçamento Participativo. Além disso, o PT estimulou a mobilização social e a democratização da informação.

A inversão de prioridades representou um novo olhar sobre o público e o bem público. Parcelas da população historicamente excluídas do acesso a equipamentos públicos e das políticas governamentais passaram ao centro das preocupações das gestões petistas. O OP foi, sem dúvida alguma, uma importante ferramenta de distribuição mais equitativa dos recursos orçamentários que, aliado a diferentes programas e projetos de inclusão social, possibilitou a melhoria das condições de vida de grandes contingentes populacionais.
Participação Popular


Entretanto, com o passar do tempo, esses dois eixos já não eram suficientes para distinguir as administrações petistas de outras de caráter liberal ou mesmo conservador. Isto porque a direita percebeu que esse Modo Petista de Governar não somente melhorava a vida da população, como também tornava o partido uma grande "máquina eleitoral" ao desmontar seus redutos históricos e escantear suas lideranças da vida pública. Esse fato foi particularmente notável no Nordeste brasileiro, mas também na Amazônia. O que fez a direita? Também passou, a seu modo, a executar ações de "inversão de prioridades" calcadas, evidentemente, no assistencialismo, e de "participação da sociedade", ainda que fortemente controlada. Essa situação exigiu do PT um passo ainda mais ousado. Daí surgiu o terceiro eixo: a disputa pela hegemonia. Ou seja, não bastava distribuir melhor os recursos e/ou chamar a população para o debate político. Era necessário ainda constituir uma força contra-hegemônica visando mudanças estruturais na sociedade a longo prazo, e em grande parte isso deveria passar necessariamente pelo aprofundamento da democracia:
De modo geral, podemos dizer que o processo de democratização expresso na "ampliação" da esfera pública gerou, ao mesmo tempo, um problema a ser resolvido e os meios de sua solução. O problema consiste em superar a contradição existente entre, por um lado, a socialização da participação política e, por outro, a apropriação não social dos mecanismos de governo da sociedade. Nessa medida, a plena realização socialista do homem não requer apenas a supressão da apropriação privada dos meios de produção, que são frutos do trabalho coletivo: requer também a eliminação da apropriação não social (privatista) das alavancas de poder, ou seja, a realização do que Marx chamou de "autogoverno dos produtores associados". Superar a alienação econômica é condição necessária, mas não suficiente, para a realização integral das potencialidades abertas pela crescente socialização do homem; essa realização implica também o fim da alienação política, o que, no limite, torna-se realidade mediante a reabsorção dos aparelhos estatais pela sociedade que os produziu e da qual eles se alienaram (é esse, de resto, o sentido da tese marxiana do "fim do Estado"). COUTINHO, Carlos Nelson. Contra a Corrente: Ensaios sobre democracia e socialismo. - São Paulo : Cortez, 2000, p. 29 (grifo nosso).

Edmilson Rodrigues
Creio que a experiência que vivenciamos em Belém com o Congresso da Cidade se alimentou fortemente desse desejo de realizar a disputa pela hegemonia com os segmentos conservadores da sociedade. O Congresso, apesar de alguns bons estudos desenvolvidos por pesquisadores(as) da UFPA, ainda não foi suficientemente analisado e, portanto, tiradas as lições devidas. Da minha parte, considero aquela experiência ainda mais avançada do que o OP de Porto Alegre, pois conseguiu efetivamente atrair múltiplos olhares e vivências para a construção de uma nova cidade: homossexuais, idosos(as), jovens, negros(as), portadores(as) de necessidades especiais, moradores(as) da periferia, servidores(as) públicos(as), afrodescendentes, ONGs, movimentos sociais, enfim, uma gama enorme de atores sociais envolveram-se de corpo e alma nas reflexões e nas decisões de interesse público. Tudo passou a ser do nosso interesse. Lembro das mobilizações que realizamos contrárias ao desmonte do porto de Belém, que o governo do PSDB queria impor. Também me vem à lembrança as ações de denúncia e de combate à manipulação dos índices que serviam para o cálculo do repasse dos recursos oriundos do Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Servições (ICMS); manobra dos tucanos para asfixiar o governo do Edmilson Rodrigues.

Combatendo a exclusão e a desigualdade sociais
Com o Congresso da Cidade passamos a ter uma visão mais abrangente e mesmo mais generosa sobre Belém e seu futuro. Logicamente que uma quantidade enorme de pessoas contribuíram para a realização dessa fabulosa experiência. Algumas bastante conhecidas, a maioria anônima. Todavia, não há como negar o papel decisivo desempenhado pelo então prefeito Edmilson Rodrigues. Ele não somente estimulou como foi o mais enfático defensor da iniciativa. E isto não é pouco, pois não são muitas as pessoas que decidem partilhar o poder com outros.

Por outro lado, Edmilson Rodrigues sempre teve muito claro os limites impostos pela institucionalidade burguesa. Daí a sua contínua vontade de romper com essas amarras, a fim de garantir a efetiva participação da sociedade. É alguém que mesmo tendo plena consciência das suas atribuições legais teima em não sujeitar-se a elas, como um fantoche. É alguém que ainda sonha, luta e vive por uma outra sociedade, que não se rendeu ao desenvolvimentismo econômico como a única utopia.

sábado, 21 de julho de 2012

Incompetência, lixo e desleixo.

Participei hoje pela manhã de uma caminhada com alunas do curso de Pedagogia da Universidade do Estado do Pará (UEPA). Essas estudantes já encontram-se dando aulas para alunos(as) da primeira a quarta séries, incluindo Geografia e História. Foi um "tour" pela Estação das Docas, Ver o Peso e Feliz Lusitânia. O evento objetivou mostrar a essas alunas as mudanças ocorridas na cidade desde a sua fundação, abordar fatos históricos marcantes ocorridos naque área, as alterações nas funções dos prédios e outros espaços ao logo do tempo e sobre as formas de abordar a geografia com alunos(as) das séries iniciais. A ideia da caminhada foi da Regina Ferreira que está ministrando a disciplina Geografia da Amazônia naquela universidade.


Nosso maravilhoso Ver-o-Peso
Fui convidado para participar da atividade por ser historiador. Uma das coisas que sempre chamou minha atenção diz respeito ao desconhecimento da nossa história por grande parte de nós belenenses. Dos conflitos envolvendo cabanos e forças legalistas que resultou na morte de Antonio Vinagre, ocorrida na esquina das atuais Frutuoso Guimarães com a João Alfredo. Das tentativas de Diogo Antonio Feijó de convencer os ingleses a invadir a Amazônia para destruir a revolta popular cabana. Das estruturas de metal oriundas da Grã-Bretanha e dos Estados Unidos no Mercado do Ver-o-Peso e nos galpões da Estação das Docas. As pressões de moradores locais sobre famílias de imigrantes japoneses e alemães durante a Segunda Guerra Mundial - não esqueço de uma foto sensacional retratando isso e que foi publicada pelo jornal Folha do Norte. Bem, os exemplos são abundantes.

Revolucionários(as) Cabanos(as)
Recordo que somente fui estudar a Cabanagem quando entrei na UFPA, pois a ditadura militar simplesmente baniu o movimento cabano dos currículos escolares. Daí a importância do resgate dessa história com a Aldeia Cabana e outras iniciativas. Todavia, as forças conservadoras buscam ainda hoje manter sepultada a Cabanagem. Tanto é que a atual administração municipal se refere ao equipamento público da Av. Pedro Miranda como Aldeia Amazônica em vez de Aldeia Cabana.

Sempre fico empolgado quando foco a nossa história. Não obstante, esse post foi escrito para expressar a minha revolta com o estado atual do Complexo Ver-o-Peso, em particular da Feira do Açaí. Senti tanta saudade de como era aquela feira durante o governo do Edmilson Rodrigues, então no PT. Além de local de trabalho de centenas de pessoas envolvidas direta ou indiretamente com a produção e a comercialização do açaí, era também ponto de encontros, de boas conversas, de comidas típicas, de shows, de ouvir música regional, de estar perto de artistas da nossa terra. O que vi durante a caminhada? Lixo, muito lixo em dezenas de sacos amontoados ou simplesmente espalhado pelo chão. A Ladeira do Castelo está destruída, com o calçamento todo arrebentado. Os prédios históricos deteriorados. Enfim, senti profunda vergonha daquilo ali. Como levar amigos que vêm nos visitar para um local daquele, sem estrutura, policiamento precário, sem higiene? Como passear com a família num ambiente nessa situação?

O abandono criminoso do Ver-o-Peso
Sob todos os aspectos a Feira do Açaí e adjacências encontram-se em estado lastimável: segurança, higiene, sanitário, comodidade, atendimento etc. É culpa de quem? De quem continua trabalhando dia e noite naquele local para sobreviver, ou de quem abandonou completamente esse ponto importante da cidade? Aquela área do Ver-o-Peso é, como outras na cidade, importante na formação da nossa própria identidade cultural. Infelizmente temos um "doutor" em "traquinagens" na prefeitura, cuja maior preocupação é gerir seus bens materiais, que cresceram como nunca nesses oitos anos de governo, além da continuidade da sua carreira política.

O Complexo Ver-o-Peso está uma vergonha! Seu abandono expressa a canalhice do bloco de poder que se assenhorou desse ente do Estado que é a prefeitura. Duciomar e sua corja querem mais que aquilo tudo se exploda a fim de que, quem sabe um dia, entupir a área de prédios com quarenta andares. Para eles pouco importa história, cultura e identidade, mas tão somente o tilintar das trinta moedas...
Estudantes de Pedagogia da UEPA
e sua professora Regina Ferreira.

Belém merece ser uma cidade justa, democrática e sustentável.

Basta ter alguma sensibilidade para perceber que Duciomar Costa foi uma tragédia para Belém. Seus oito anos de mandato significaram não somente o desconstrução das conquistas sociais e democráticas alcançadas durante o governo de Edmilson Rodrigues, como também a completa privatização do Estado. Todavia, é preciso reconhecer que durante muito tempo fizemos uma leitura equivocada da capacidade política do atual edil. Tal análise foi extremamente nefasta ao conjunto dos movimentos sociais com atuação na capital.

Dudu: mais rico, mais influente, mais ambicioso.
Duciomar Costa nos pareceu uma figura despreparada, frágil e sem capacidade de liderança. De certa forma criamos uma caricatura dele e acabamos acreditando nela. O episódio do diploma falso de médico nos convenceu que aquele sujeito, além de não possuir qualquer senso de ética, era simplesmente ridículo. Um idiota que certamente "daria com os burros n'água".

Entretanto, o que vemos ao final de seu governo é que ele foi capaz de constituir em torno de si o mais amplo e poderoso arco de alianças de forças políticas e econômicas que se assenhoraram do Estado por meio de assistencialismo mesclado com autoritarismo, corrupção e nepotismo, e que auferiram vultosos lucros com a mercantilização do espaço urbano. De um modo geral podemos dizer que estão com Duciomar os capitais imobiliário (incorporadoras, latifundiários urbanos e imobiliárias) e financeiro (bancos e financeiras), empresários (construção civil, transporte, prestadoras de serviço, proprietários de redes de supermercados, grupos que comandam shopping centers etc.), a mídia corporativa e ainda possui influência nada desprezível sobre o Judiciário. Além disso, conta com forte apoio de grupos religiosos (alguns extremamente conservadores), lideranças comunitárias e sindicais, partidos fisiológicos e outros. Evidentemente que isto ocorreu em outras administrações municipais de direita, mas tenho dúvidas que algo semelhante com essa amplitude e capacidade de articulação haja existido.

Duciomar se tornou o homem de confiança da direita "tupiniquim". Uma das suas principais lideranças, e nem a possível derrota de seu candidato vai abalar essa condição. A menos que ocorra uma reviravolta no Judiciário, que os movimentos sociais urbanos saiam de sua condição letárgica, ou que as forças que assumam a prefeitura resolvam fazer uma devassa no governo capitaneado pelo PTB.

Edmilson Rodrigues: esperança de dias melhores para Belém.
A oposição na Câmara de Vereadores foi incapaz de criar grandes embaraços ao atual prefeito. Não podemos negligenciar o fato de que o mesmo detinha o controle do legislativo. Contudo, também não temos como esquecer as alianças estabelecidas entre o PT e Duciomar para viabilizar a campanha pela reeleição de Ana Julia, bem como para garantir a vitória de Dilma Roussef no Pará.

Ao que tudo indica, Dudu terminará seu mandato mais rico, mais influente e ainda mais ambicioso. Como diria uma das personagens do seriado Chaves: "Quem poderá nos salvar?".

Creio que o candidato mais bem preparado para fazer frente a esse bloco de poder que se apossou da prefeitura é Edmilson Rodrigues (PSOL), mas isso será objeto de um outro post.

quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

Os rescaldos do plebiscito

No próximo domingo nós paraenses decidiremos se o Pará continuará uno ou se teremos a criação de mais dois novos Estados, nesse caso o Tapajós e o Carajás. Vai ser uma decisão difícil por diversos motivos. Em primeiro lugar porque é inegável que a população interiorana vem sendo relegada a um plano secundário por sucessivos governos. A prestação dos serviços de saúde, abastecimento de água, coleta de esgoto e de lixo (não é possível sequer falar em tratamento), transporte, educação e moradia, entre outros, é muito deficiente. As pessoas se sentem abandonadas e entregues à própria sorte nos travessões da Transamazônica ou da Cuiabá-Santarém. Em segundo lugar porque nem a população da Região Metropolitana de Belém (RMB) ou do que vier a ser o Pará (caso haja a divisão) goza de serviços públicos de qualidade. Segundo estudos do governo federal, a RMB é uma das piores regiões metropolitanas do país em termos de qualidade de vida. Ou seja, aqui também a pobreza e o abandono são grandes, mesmo reconhecendo que a situação é um pouco melhor do que nas demais regiões.

O que é irritante nesse processo de debate sobre a divisão ou não do Estado é cara de pau de muitos políticos, estes sim alguns dos principais responsáveis pela situação a que chegamos, virem à televisão para dizer que as coisas vão melhorar se dividir, e outros dizendo que as coisas já estão mudando.

Entre os defensores da divisão encontram-se parlamentares como Lira Maia (DEM) e Giovanni Queiroz (PDT) que sempre "mamaram nas tetas" oficiais. Estiveram a maior parte do tempo às sombras do poder, beneficiando-se de diversas formas dos governos que apoiaram. Agora vêm a público denunciar uma situação da qual eles mesmos foram cúmplices e responsáveis. Do outro lado, temos Zenaldo Coutinho (PSDB) e Manoel Pioneiro (PSDB) há anos usufruindo das benesses do poder e utilizando a pobreza para garantir suas sucessivas reeleições, ambos nas periferias da RMB. São todos calhordas travestidos de cordeiros. Se tem uma coisa com a qual não estão preocupados é com a situação das populações das diferentes regiões do Pará. Zenaldo quer ser prefeito de Belém. Lira Maia quer ser governador do possível Estado do Tapajós. Giovanni sonha em ser senador, pois sabe que dificilmente seria indicado à disputa pelo comando do Estado do Carajás. Já Pioneiro deseja continuar sendo o insignificante de sempre, mas bem aquinhoado.

Não esqueçamos Simão Jatene que ocupa postos de destaque no Pará desde o final da década de 1970. Ele, portanto, não pode deixar de assumir suas responsabilidades pelo Pará ter um dos piores Índices de Desenvolvimento Humano do país, mesmo que estejamos entre aqueles que mais contribuem para o PIB brasileiro. Somos um estado rico com uma população pobre. Nossas riquezas servem para enriquecer alguns grupos econômicos do Brasil e do exterior enquanto que à população sobram os impactos negativos da exploração intensiva e inconsequente de nossos recursos naturais.

E o Jader? E o Priante? E o Oti Santos? E o Paulo Rocha? E o Wandekolk Gonçalves? E a Tetê? E o João Salame? E o Antonio Rocha? E a Josefina Carmo? E o Raimundo Santos? E o Megale? E o Pio X? E o Haroldo Martins? E o Tião Miranda? E o Alexandre Von? E a Simone Morgado? E o Parsival? E o Manoel Pioneiro? O que dizer de todos eles e de outros mais? Todos, absolutamente todos, são os grandes responsáveis pela indecente situação de pobreza do povo paraense. Agora, durante a campanha do plebiscito, se transformaram em defensores de "ideais nobres": denunciam a Lei Kandir que repassa as nossas riquezas a preços de "pai para filho", mostram-se horrorizados com o fato de os pobres buscarem ajuda médica em Teresina (PI), Goiás ou Tocantins, indignam-se com a falta de infraestrura. Calhordas!

As demandas das populações do Oeste e do Sul/Sudeste do Pará são legítimas. Não podemos fechar os olhos para isso. A divisão é a melhor alternativa? Há ainda muitas dúvidas quanto a essa questão e a campanha na televisão e no rádio em nada ajudaram a reflexão madura e consequente sobre o assunto. Foi um desperdício de dinheiro!

O que me preocupa é o pós-eleição. Independentemente do resultado do plebiscito o Pará não será mais o mesmo. Creio que o governo Jatene entrará numa espiral de crise. Isto porque a vitória do NÃO vai provocar inúmeros ressentimentos e a recomposição de sua base político-partidária não será fácil. Passará a ser um governo ainda mais questionado nas regiões.

Por falar em ressentimento, isto já pode ser percebido mesmo antes do dia do plebiscito. Viajando por Santarém ouvi diversas frases e piadas semelhantes às que nós paraenses comumente ouvimos quando vamos ao Amazonas, como "aquele povo de Belém" e outras mais. No aeroporto daquela cidade vi dois jovens trocando mensagens pela internet, cujos conteúdos eram racistas, identificando os/as "paraenses" como vagabundos(as) e/ou ladrões. Foi terrível assistir aquilo. A campanha na TV e na rádio (de ambos os lados) atiça ainda mais esse sentimento de disputa.

Se o SIM ganhar o definhamento da base do governo é quase certo. Os ressentimentos também serão evidenciados de diferentes formas entre a população. As disputas pelos cargos que serão criados com a constituição dos novos Estados vai levar os "paraenses" a disputá-los em melhores condições, alimentando ainda mais os conflitos entre os "naturais" e os "invasores". Este é apenas um pequeno exemplo de como os ressentimentos poderão expressar-se.

O plebiscito é uma forma democrática de decisão sobre assuntos relevantes. Pena que este tenha sido manipulado pelo SIM e pelo NÃO para encobrir interesses nefastos à população. O Povo do Pará merecia bem mais do que isto. Seja como for, os grandes grupos econômicos nacionais e estrangeiros deverão ser, mais uma vez, os grandes vencedores do processo... Infelizmente.

sábado, 5 de novembro de 2011

Belém e a imundice

Nasci e me criei em Belém. Por apenas dois anos e meio estive fora da cidade, período em que residi em Manaus. Tenho dificuldades para me ver ver vivendo em outro lugar. Nossa cidade é encantadora. Amigos que vêm por essas bandas se maravilham com a hospitalidade das pessoas, as comidas típicas, as vendedoras do Ver o Peso, a variedade de sabores dos sorvetes, o Teatro da Paz e por aí vai. Ouvir falar bem da nossa cidade é sempre muito bom ao nosso ego.


Entretanto, não podemos fechar os olhos a uma triste realidade: nossa Belém é imunda. O lixo está "democraticamente" espalhado na periferia e no centro da cidade. A outrora metrópole da Amazônia parece ter sucumbido ao lixo. É lixo nos ônibus, nos quintais, nas frentes das casas e dos prédios, nas calçadas, nas praias, nos rios que circundam a cidade e nos igarapés que a recortam. Desde as bitucas de cigarro até móveis, colchões etc. E não se pode dizer que isso ocorre por "mal hábito dos pobres", como alguns preconceituosos brandam sem cessar. É ou não comum vermos pitboys em seus carros importados lançando latas e mais latas de cervejas pelas ruas da cidade? Veja a Doca, por exemplo. Todos têm culpa independentemente da renda. Contudo, não se pode desconhecer que para quem mora na periferia, lugares em que muitas vezes o carro do lixo sequer entra, a situação é bem mais complicada. Então temos um misto de incompetência governamental e de pouca noção de cidadania, que juntas transformam nossa cidade nesse lixão a céu aberto.

Um "pequeno" detalhe. Os governos tucanos se vangloriam de terem realizado a Macrodrenagem da Bacia do Una. A maior obra de infraestrutura urbana da América latina, dizem eles. Enchem o peito emplumado para afirmar que gastaram cerca de R$ 700 milhões na obra. A maior parte emprestada pelo Banco Interamericano de Desenvolvimento e com recursos do governo federal. Pois bem, eu lhes pergunto: Onde estão as estações de tratamento? Gastaram uma fortuna na dragagem, na instalação de fossas sépticas e na ampliação das redes de esgoto e de água e absolutamente nada na construção dessas estações? Os igarapés se tornaram grandes valões onde toda espécie de imundice se movimenta de um lado para outro. Peço desculpas aos lasanheiros e lasanheiras, mas para mim isto é uma junção de burrice, mal caratismo e - vamos dizer - mal uso do dinheiro público. Numa linguagem chula podemos afirmar o seguinte: a bosta captada de nossas casas está sendo jogada tal como antes do Projeto de Macrodrenagem nos rios onde captamos água para beber. E essa é a loucura da história, porque o tratamento fica ainda mais caro. Coitado do nosso dinheirinho...

Voltemos ao lixo - desculpem, não resisti. O nosso "honesto" e "competente" prefeito Duciomar Costa está movendo mundos e fundos para garantir a privatização do tratamento do lixo na Estação do Aurá. Primeiro, porque isso lhe garantirá muitos fundos
- principalmente nas futuras campanhas eleitorais, inclusive a do ano que vem. Segundo, com esses fundos ele vai viver no melhor dos mundos. Basta ver a singela evolução patrimonial do ilustre edil, de seus familiares e alguns amigos do peito (haja peito) nos últimos sete anos em que Dudu esteve a frente da prefeitura de Belém.

Os projetos sociais que havia no Aurá foram desmontados por Duciomar Costa. Justamente projetos de largo alcance que fizeram Belém receber vários prêmios da UNICEF e de outras instituições. Crianças foram retiradas do local por conta de serem atendidas pelo Bolsa Escola e houve o desenvolvimento de um trabalho interessante junto aos pais. Infelizmente tudo foi jogado no lixo.

A coleta do lixo já é algo ineficiente e foi privatizada há tempos. Agora, Dudu nos diz que com a privatização do Aurá tudo vai melhorar. Vai mesmo? Dudu é um privatista. Fez de tudo para tirar da COSANPA a atribuição de prestar os serviços de abastecimento de água e de coleta e de tratamento do esgoto. Para buscar a universalização dos serviços e assim melhorar as condições de vida de todos os habitantes de Belém? Não! Para repassá-los a grandes grupos privados. E se alguém acha que isso seria o melhor para a nossa cidade, pergunte a quem mora em Manaus se está plenamente satisfeito com a multinacional francesa que hoje é responsável por essa atividade na capital amazonense.

A coletiva seletiva de lixo em Belém é uma piada. Simplesmente não existe. O que vemos são ações pontuais. Até uma grande rede de supermercados da cidade iniciou a sua própria coleta seletiva. Enquanto isso, na Sala da Justiça, Dudu força o seu poderoso cérebro pra encontrar mais uma coisa para vender...

Brincadeiras a parte é preciso dizer que sinto vergonha de ver a situação a que chegamos. Eu que viajo bastante fico um tanto quanto abatido a cada volta. De constatar que a noção de cidadania ainda é algo distante na nossa comunidade e que o mal caratismo e a corrupção dão as cartas em altas esferas do poder local. Nos resta cantar?

Joga fora no lixo, joga fora no lixo...

domingo, 11 de setembro de 2011

Por uma discussão mais consistente sobre a Divisão do Pará

Salve salve lasanheiros e lasanheiras.

É com imenso prazer que informo aos nossos (poucos) leitores que chegamos à nossa 80º (octogésima) postagem aqui no #LasanhaComFarinha. E nada mais justo que fazer uma postagem interessante e de bom conteúdo. É o que vou tentar, vamos lá.

Costumo pensar que uma roda de amigos num barzinho é um excelente termômetro da sociedade sobre temas polêmicos. Além daqueles tradicionais como política, religião e futebol, certas temáticas de época costumam gerar discursos efusivos, tempos em tempos. Essas discussões muitas vezes não tem uma base teórica lá muito apurada, no entanto reflete de forma bastante fiel o modo como a população ao todo enxerga a tal problemática.

Como ficaria o estado do Pará em termos geográficos.
A bola da vez das mesas de bar daqui do meu glorioso estado do Pará é a possível divisão do estado, no fim do ano. Não pretendo, com essa postagem, dizer a vocês no que votar. Na verdade, eu não sou muito diferente dos que não possuem a tal base teórica, porém ainda assim espero contribuir, de alguma forma, nas conclusões próprias, de cada um de vocês, ao fim do ano.

Na época que eu fazia cursinho, em 2007, um certo professor de geografia dizia que "os argumentos de quem quer dividir o estado são ridículos. Mas os argumentos dos que não querem dividir são piores ainda". Antes, eu não entendia muito bem o que ele queria dizer com essa ideia, mas hoje eu compreendo melhor. A discussão pela divisão do estado, como em qualquer discussão, se baseia nos interesses pessoais de cada pessoa: o desmembramento faz todo sentido pra quem mora nos possíveis estados e causa repulsa em quem mora no possível futuro Pará recortado.

É um fenômeno realmente impressionante o que tem acontecido aqui por essas bandas: uniões nunca imaginadas e prol de uma ou outra decisão. Explico: "Nunca antes na história desse" estado os grupos "O Liberal" (ORM) e "Diário do Pará" (RBA) defenderam tanto a mesma ideia. E isso tem uma lógica muito grande, pois ambos os grupos de comunicação vão perder bastante influência política. O poder de barganha com determinados políticos e segmentos da sociedade civil vai diminuir consideravelmente. Em contra-partida, nessa discussão os partidos políticos praticamente se desfizeram, pois os deputados federais e estaduais, vereadores e prefeitos que são do interior do estado mostram um apoio frenético à divisão. Veja bem, existem políticos do interior em todos os partidos, ou seja, independente de visão política os que são dos possíveis novos estados apoiam a divisão, enquanto que os da capital, região metropolitana e nordeste do Pará não querem a divisão.

Não existe nessa discussão PT, PSDB, PMDB, DEM, PSOL, PV ou outro: tudo depende de que lugar é o político. Na gestão do PT, que terminou no ano passado, a então governadora Ana Júlia Carepa defendia o estado unido, enquanto que seu vice (Odair Corrêa, se não me falha a memória) que é de Santarém era um dos maiores entusiastas da criação dos novos estados. 

Slogan da propaganda a favor da
manutenção da união do estado
A população em geral parece compartilhar da visão de seus políticos. Na região que irá continuar sendo Pará, mesmo que ocorra a divisão, é raríssimo ver alguém contra a divisão do estado. Predomina aqui o mesmo argumento vago de que vai ser gasto bilhões de reais na construção da infra-estrutura necessária aos novos estados. Por que é vago esse argumento? Porque é justamente o que a classe política local e mais os que vão perder poder de influência, como os grupos citados anteriormente, querem que a gente pense. Vejam bem, eu não estou aqui defendendo a divisão do estado, apenas quero mostrar que é preciso argumentos mais consistentes do que esse, pois todo ano os governos em geral desperdiçam bilhões em outras coisas, e até mesmo com desvio. Pra mim esse não é um argumento suficiente, e é o único que a população em geral usa. Ah não, tem outro também: "esses caras só querem dividir o estado pra roubar mais dinheiro pra lá!". Outro argumento que a imprensa vai martelar na nossa cabeça quando o horário político começar.

Slogan da propaganda a favor da divisão do estado.
Por outro lado, a população do interior do estado é quase unânime quanto a criação dos novos estados. O argumento deles é que vai trazer progresso o fato de terem autonomia de decidir o que querem pra eles. Puro engano. Isso é o que os políticos de lá querem que a população acredite. Se isso vai acontecer, é outra história. Fato é que muitos dos nossos amigos interioranos não se consideram paraenses. Isso ficou bastante visível pra mim quando fui à cidade de Santarém, oportunidade a qual pude perceber que eles possuem muito mais ligação com Manaus do que com Belém. Podemos ver várias faixas pró-Carajás nos jogos do Águia de Marabá, pela série C do campeonato brasileiro.

Visto isso, outro argumento usado por quem quer a união do estado é que a divisão do estado ia quebrar toda a identidade cultural da população paraense. Mas que idiotice! Os caras nem se consideram paraenses, imagina ter cultura paraense. O mais hilário é ver as propagandas do Diário do Pará na televisão, com a temática "Orgulho de ser paraense" e 95% das imagens mostradas são de Belém. Quer dizer que ter orgulho de ser paraense é ser de Belém?

To com medo de parecer que eu quero que o Pará seja dividido, mas são apenas pensamentos sobre a ignorância e até a hipocrisia que muitos dos que defendem a união do estado possuem. É mais que claro, meus amigos, que tudo isso gira em torno de interesses políticos e pessoais. Tem gente que é contra só por ser do contra, e não pode ser assim. É uma decisão importantíssima que deve ser tomada com muito conhecimento do assunto. Devemos analisar, por exemplo, a migração que esses novos estados vão sofrer, caso sejam criados. Marabá e Santarém tem capacidade pra absorver essa gente toda que vai pra lá? Essas cidades possuem infra-estrutura necessária pra todas as transformações que vão ocorrer? Belém não ficaria melhor com 500 mil pessoas a menos, circulando na cidade? Pense: menos engarrafamentos, menos filas nos hospitais e até quem sabe menos violência?

Temos que pensar no todo, o que é melhor para os quase 7 milhões de pessoas que habitam esse estado. O que é mais vantajoso pra todos nós. Não podemos nos prender a certas opiniões tendenciosas. Os jornais de nível nacional também se encaixam nesse perfil. Espero realmente que ao começar a propaganda gratuita no rádio e televisão, os argumentos de todos, seja contra ou a favor, tenham uma melhor base teórica, para que dia 11 de dezembro façamos a melhor escolha.

Beijo do gordo! Uou!

quarta-feira, 29 de junho de 2011

Festa Junina no Nordeste, o nosso Círio de Nazaré

Já queria falar sobre esse tema há algumas semanas, mas não tem lugar melhor para estar inspirado pra falar disso do que no Nordeste brasileiro: Festa Junina.

Na verdade, o fato de eu estar aqui em Recife, me fez mudar um pouco a ideia de postagem que eu tinha. Mas vamos lá: as Festas Juninas, como o nome sugere, são realizadas no mês de junho, em todo Brasil. O que eu não sabia (mas logo depois me achei um completo idiota por não ter pensado antes nisso) é que a festa junina como conhecemos é oriunda do bom e velho continente: a Europa. E consequêntemente não é comemorada apenas no nosso país.

Sim meus caros, na festa junina festajamos vários santos, como São João e Santo Antônio, e foi lá na Europa que o Catolicismo surgiu, cresceu e é do jeito que conhecemos hoje. Pra você ter uma idéia, a dança mais famosa do período, a quadrilha, tem o nome oriundo da França. Enfim, se vocês querem saber sobre a história da festa junina, como surgiu e chegou no Brasil, sugiro que visitem o pai dos burros: Dicionário? Que nada! É o Google, junto com a sua parceira inseparável, a Wikipédia.


Minha intensão com esse humilde post é mostrar o quão impressionado eu fiquei em ver como os Nordestinos concebem a festa junina. Pra começar que aqui é feriado. Galera toda se reúne, faz festa e mil tipos de comidas diferentes pra celebrar as datas. Me lembrou muito o nosso Círio de Nazaré. Tem apenas algumas pequenas diferenças, como o fato de ser mais de um santo celebrado e que a festa mor acontece não na capital, mas no interior do estado. Recife tava vazia quando cheguei, porque metade da população tinha ido pra Caruaru(PE) ou Campina Grande(PB). E quem ficou na cidade pôde assistir em quase qualquer canal local as festas. Na Globo Nordeste, por exemplo, tava passando todas as festas de todas as capitais nordestinas.

E aqui a galera se veste mesmo de caipira. Em Belém, que é onde eu moro, quem se veste assim são mais as crianças, ou então quem vai dançar quadrilha. Aqui é todo mundo mesmo, desde bebê a senhor de idade. Muito interessante todo mundo vestido de @_santoandre pelas ruas... Enfim, foi uma experiência e tanto passar o feriado de São João em Recife.

Teve muito mais comida que isso!

Mês de junho está entre os meus 5 meses do ano favoritos (Abril, pelo meu aniversário; Junho, pelas festas juninas; Julho, pelas melhores férias do ano; Outubro, pelo Círio de Nazaré; e Dezembro, pelo Natal). Tem tanta comida gostosa, tanta gente alegre nas ruas... Só que eu preciso confessar que nesse ano eu me achei meio velhoe ultrapassado: foi a primeira vez na minha vida que eu me encomodei com as bombas típicas da época, estourando na rua de casa. Antes era simplesmente sensacional eu, o papai e o Lucas fazendo aquelas latas de leite voarem quando a gente colocava bomba dentro delas. Bons tempos... E a cara de preucupação da mamãe era sem igual! =D

O que eu acho engraçado também é que desde que eu me entendo por gente, pelo menos em Belém, tocam as mesmas músicas de São João. "Eu sonhei que eu era, um balão dourado...", "Viva a magia viva do maracatu, é série b é série 1", entre outras. Entra ano e sai ano e essas músicas não saem da moda. Não deu pra notar se aqui é assim também, até porque eles ouvem outros ritmos como baião, forró "arrasta pé" e o xote. E só a nível de curiosidade (porque eu não sabia), as festas juninas de Cametá, no Pará, são umas das maiores festas, desse tipo, no Brasil.

Enfim galera, esse post veio meio tarde, porque Junho tá acabando, mas tá aí. Viva São João! E pra quem passou pelo dia de Santo Antônio e não conseguiu namorado(a), não se preocupe, ano que vem tem de novo! 0/