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sexta-feira, 29 de junho de 2012

Criminosos que incriminam

Você deve estar acompanhando o noticiário sobre a renhida resistência de indígenas, ribeirinhos, mulheres, jovens, agricultores familiares, pastorais sociais e outros segmentos contra a construção da hidrelétrica de Belo Monte, lá em Altamira (PA). Pois bem, há um grupo de lideranças que está sendo criminalizado por conta da última ocupação no canteiro de obras da Norte Energia. O absurdo da situação é que pessoas que sequer encontravam-se no município durante o ato dos movimentos sociais foram denunciadas pela Polícia Federal. É o caso, por exemplo, da Antonia Melo, liderança do movimento de mulheres daquela região.

Antonia Melo
Quando ocorreu o ato a Antonia Melo estava no Rio de Janeiro participando da Cúpula dos Povos durante a Rio+20, abordando  justamente as violações contra os direitos humanos provocadas pela ação/omissão dos governos federal, estadual e municipal, bem como pelo consórcio das empresas responsáveis pela construção da barragem. Ou seja, a denúncia da PF não se baseou em fatos, mas tão somente com a intenção de intimidar, pressionar, impor o medo naqueles(as) que lutam contra a estratégia suicida das elites políticas e empresariais que querem garantir o acesso, uso e controle irrestrito dos recursos naturais existentes na Amazônia aos grandes grupos econômicos nacionais e transnacionais, mesmo que isso provoque a desestruturação dos modos de vida de comunidades inteiras, a destruição da floresta, a contaminação da água e do ar, o inchaço das periferias urbanas, a falência do serviço público (incapaz de atender o aumento exponencial das demandas), o aumento das diferentes modalidades de violência, a expansão do consumo das drogas, o desaparecimento de espécies da fauna e da flora etc.

Muitos falam sobre a ausência do Estado na Amazônia. Nada mais equivocado, pois, historicamente, o Estado brasileiro sempre se fez presente quando os interesses dos poderosos correram algum risco. Foi assim na Cabanagem, no assassinato de Quintino Lira pela Polícia Militar durante o primeiro mandato de Jader Barbalho no governo estadual, na proteção às propriedades dos latifundiários do Sul e Sudeste do Pará - que, diga-se de passagem, foram obtidas em grande parte através da grilagem de terras públicas -, no remanejamento forçado de populações ribeirinhas, indígenas ou de agricultores familiares para a construção das hidrelétricas de Samuel (RO), Balbina (AM) e Tucuruí (PA) e agora em Altamira, entre tantos outros exemplos. O Estado se faz ausente para alguns setores da sociedade amazônida, nunca para os poderosos: Federações das Indústrias, Federações da Agricultura, Zona Franca de Manaus, Vale, ALBRAS, ALUMAR, Norte Energia, Consórcio Energia Sustentável (RO), Consórcio Madeira Energia (RO), Maggi, Cargil, ADM, Eletronorte, Petrobras, madeireiras, agronegócio, Daniel Dantas, ALCOA etc.

Cerca de 200 índios Xikrin e Juruna estão acampados desde o dia 21
 nas obras da Usina Hidrelétrica de Belo Monte 
Enquanto os representantes de organizações da sociedade civil são alvo de inquérito policial em Altamira, o Consórcio Norte Energia ignora as mais de 40 condicionantes a que foi obrigado acatar para que obtivesse a licença de instalação do canteiro de obras. Nesse caso, nem os governos e nem os poderes legislativos tomam as rédeas da situação para que o Consórcio cumpra com o que foi determinado. Prevaricam, fecham os olhos para as atrocidades cometidas contra a população (casas são derrubadas para forçar os moradores a saírem do local; escolas, hospitais e outros equipamentos públicos não foram construídos, as indenizações pelas benfeitorias dos ribeirinhos são baixíssimas, para citar apenas alguns exemplos), concedem incentivos fiscais e tributários indecentes, descumprem a legislação ambiental... Ou seja, quem comete crimes é quem incrimina. E o culpado é sempre o mordomo.

sexta-feira, 13 de abril de 2012

O mercado de carbono: ou a natureza como uma mercadoria qualquer.

Com a constituição do capitalismo se consolidou uma perspectiva que marcou a história da humanidade a partir de então: a concepção de que o homem é um ser apartado da natureza. Essa mudança de cosmovisão mudou radicalmente a relação entre ambos. Daí em diante caberia ao homem dominar, subjugar a natureza para o atendimento pleno de seus interesses. A ciência integra o processo como uma das grandes viabilizadoras desse domínio.

Alçada a condição de uma mercadoria como qualquer outra a natureza passou a ser uma commoditie importante para a reprodução ampliada do capital. O fato novo é que agora até o ar pode ser comercializado: é o mercado de carbono. Caso essa nova modalidade de exploração capitalista seja efetivamente implantada as consequências tendem a ser nefastas para todos(as) nós.

Tal mercado, se constituído, permitirá às grandes corporações econômicas e aos Estados nacionais mais poderosos (Estados Unidos, China, França, Alemanha, Japão e outros) negociarem o direito de poluir a atmosfera, pagando aos demais países por esse direito através da compra de títulos na bolsa de valores: é a carbonificação da economia ou a financeirização da natureza. Como tudo no capitalismo, a ideia é proporcionar imensos lucros a essas corporações e seus Estados com a crise ambiental. É isso mesmo: a crise ambiental se transformou numa mercadoria valiosa, mesmo que isto venha agravar os riscos à nossa própria existência enquanto espécie.

Até mesmo desmatar passa a ser um ótimo negócio, pois a floresta nativa pode ser substituída por espécies exóticas como pinus, eucalipto, acácia, palma e outras, dizer que a área foi reflorestada e que está sendo realizado importante serviço à humanidade com a captura de carbono por essas espécies. A EMBRAPA e outras instituições de pesquisa estão aí mesmo para demonstrar "cientificamente" que o carbono está sendo retirado da atmosfera, permitindo, então, às corporações econômicas emitirem títulos nas bolsas de valores e auferir fabulosos lucros com isso.

Os defensores dessa estratégia também denominada economia verde tentam a todo custo convencer a sociedade de que o mercado é a melhor alternativa à crise ambiental. Buscam consolidar a ideia de que não há necessidade de qualquer mudança estrutural do próprio sistema, que basta a adoção de instrumentos “mais eficientes” de mercado para que o problema seja solucionado. Aí surgem siglas e mais siglas que muitos(as) de nós sequer conhece o significado: REDD, REDD+, REDD PLUS e tantos outros. Por trás desse emaranhado de letras escondem-se interesses poderosos. Em comum, a tentativa de garantir a livre expansão do capital e o controle de territórios e seus recursos.

Na (Pan)Amazônia muitas empresas (nacionais e estrangeiras) buscam freneticamente estabelecer acordos comerciais com povos indígenas através de contratos. Quando lemos tais contratos vemos com clareza que o objetivo é garantir aos conglomerados econômicos o controle dessas áreas, da sua biodiversidade, enquanto que às comunidades se pretende repassar recursos que nem de perto se aproximam dos lucros que serão obtidos pelas empresas, bem como as responsabilidades legais e financeiras de manter a área preservada.

Às medidas abordadas acima para garantir o acesso, uso e controle de territórios soma-se a execução de grandes projetos de infraestrutura na (Pan)Amazônia. Hidrelétricas, portos, aeroportos, hidrovias, rodovias, gasodutos, sistemas de comunicação, redes de energia e postos de fronteira estão sendo implantados para garantir justamente a expansão acelerada do capital na nossa região, cujos impactos socioterritoriais têm sido nefastos às populações tradicionais e outros segmentos, em particular às mulheres e jovens.

Denúncias de operários(as) submetidos(as) a condições análogas à escravidão, violência sexual, prostituição de adolescentes, disseminação do consumo de drogas, particularmente do crack, assassinatos e outras formas de violência são comumente registrados nas áreas onde estão sendo executados os empreendimentos do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) e da Iniciativa para a Integração da Infraestrutura Regional Sul-Americana (IIRSA). É o que ocorre, por exemplo, nas regiões impactadas pelas hidrelétricas Santo Antonio e Jirau no rio Madeira, em Rondônia, e em Belo Monte, no Pará.

Enquanto isso a industria barrageira como Odebrecht, Andrade Gutierrez, Camargo Corrêa, Suez Energia, Furnas, Eletronorte e outras também estão se mobilizando intensamente para que as hidrelétricas possam ser consideradas "capturadoras de carbono", a fim de também poderem vender títulos nas bolsas de valores.

Em junho haverá a Cúpula dos Povos no Rio de Janeiro paralelamente à Rio+20. Momento em que movimentos sociais e ongs do mundo inteiro tomarão as ruas para mostrar sua oposição à financeirização da natureza, pois a vida não tem preço!

Acompanhe esse debate.

sexta-feira, 15 de julho de 2011

Liberou geral!!

A casa foi arrombada, invadida e agora está sendo destruída por dentro. No caso em questão, a casa é a Amazônia. Para garantir que duas novas hidrelétricas sejam construídas no rio Tapajós o governo federal editará uma medida provisória reduzindo o tamanho de três unidades de conservação, inclusive o da mais antiga da região. Segundo o jornal Folha de São Paulo do dia 13 de julho, outras cinco áreas protegidas também estão na mira do governo. Ainda de acordo com o jornal, uma "medida provisória a ser editada ainda neste mês determinará a "desafetação" (redução) do Parque Nacional da Amazônia e das florestas nacionais de Itaituba I e II. As unidades serão alagadas pelos reservatórios das usinas São Luiz e Jatobá, no rio Tapajós, no Pará".

O absurdo dessa iniciativa do governo é que não há sequer estudos prévios para analisar os impactos sobre a floresta e comunidades dessa possível redução das áreas protegidas. Ou seja, a decisão foi tomada e ponto final. Não interessa aos governantes e seus aliados (empreiteiras, bancos nacionais e estrangeiros, parlamentares, partidos e outros) as consequencias dessa insanidade. É importante registrar que o pedido de diminuição dessas áreas foi feito pela Eletronorte sem que a empresa tenha apresentado justificativa plausível. Como disse acima, um verdadeiro aburdo!

As pessoas responsáveis pelas áreas protegidas já foram comunicadas pelo presidente do Instituto Chico Mendes para a Conservação da Biodiversidade (ICMBio) da decisão do governo federal e, ao mesmo tempo, foram "instruídas" a não dar entrevistas à imprensa. Ocorre que os/as responsáveis se posicionam contrários(as) às intenções emanadas de Brasília. A tendência mais provável é que tais pessoas sejam devidamente "enquadradas" pelo governo federal ou afastadas de suas funções, da mesma forma como ocorreu com os/as técnicos(as) do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (IBAMA) que se opuseram à construção das hidrelétricas Santo Antonio e Jirau, em Rondônia, e Belo Monte, no Pará.


Como senão bastasse toda essa situação acabamos de ser "premiados" com a entrevista de Curt Trennepohl, presidente do IBAMA, quando este afirmou "que seu trabalho não é cuidar do ambiente, e sim minimizar impactos ambientais". Ora, se o papel do IBAMA não é cuidar do meio ambiente ele serve realmente para quê? De acordo com a jornalista Allison Langdon, do programa "60 Minutes", Trennepohl, achando que os microfones estavam desligados, "sugeriu que o Brasil faria com os índios a mesma coisa que a Austrália fez com os aborígenes, população nativa do país da Oceania". Só para lembrar: no século XIX os colonos britânicos da Australia realizaram intensa campanha de extermínio dos aborígenes, inclusive oferecendo prêmio a quem os matasse. Qual a condição moral de o sr. Trennepohl continuar à frente do IBAMA?

O modelo de desenvolvimento econômico brasileiro é baseado na exploração intensiva e insustentável de recursos naturais. E a Amazônia é o "rico baú" que precisa ser aberto e explorado a qualquer custo. Nosso "destino" é termos as riquezas saqueadas para favorecer interesses de poderosos grupos econômicos do Brasil e do exterior, enquanto à nossa região cabe tão somente ficar com os profundos impactos socioambientais negativos? Vamos aceitar isso passivamente?


Por fim, uma informação divulgada hoje pela rede EcoAgências: "A emissão de gases que contribuem para o “efeito estufa” de hidrelétricas é quatro vezes maior do que se pensava, segundo um estudo do Instituto Catalão de Ciências do Clima (IC3) e do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa), do Brasil. Este estudo põe em dúvida a reputação de “energia limpa”, que se ostentava para a energia hidrelétrica e indica que estas centrais produzem emissões de partículas de metano na atmosfera, um gás que contribui mais para o aquecimento global da Terra que o dióxido de carbono (CO2)". Diante dessa notícia como justificar a construção de 302 barragens na Amazônia até 2050?

segunda-feira, 30 de maio de 2011

Apenas um desabafo de um torcedor Azulino

Bem, meus amigos, creio que a maioria dos frequentadores do blog são amigos e conhecidos meus, e eu bem sei que todos que me conhecem, sabem do meu amor pela instuição centenária de futebol que é o Clube do Remo.

Ontem, eu e mais 5 milhões de torcedores fomos dormir tristes, chateados, revoltados, humilhados. É claro que teve gente que foi dormir feliz, haja visto que houveram muitos e muitos fogos de artifício, antes mesmo de soar o apito final do jogo Clube do Remo 0 x 2 Independente Tucuruí, válido pela semi-final do segundo turno do Campeonato Paraense.

Será que ainda tem espaço?

E a minha pergunta é justamente essa, bicolores: comemorar o que? O Remo ser desclassificado (novamente) do Parazão e consequentemente da Quarta divisão do Campeonato Brasileiro? Que é que o Paysandu Sport Club ganha com isso? Tudo bem, eu mesmo já escrevi aqui sobre a rivalidade dos times de Belém do Pará, mas dessa vez não dá pra entender.

Situação tá tão difícil que nem escudo no nosso estádio a gente tem mais...

Se o futebol paraense estivesse indo de mal a pior, eu até estaria feliz. Mas, infelizmente, está indo de pior à decadência completa. Tenho certeza que os meus amigos bicolores, que realmente acompanham o futebol paraense, sabem que o time deles estaria igual ou pior do que o Remo se não fosse a intrigante obra do destino, de não haver Quarta Divisão do Brasileiro no ano de 2008. Digo isso porque em 2007 o Paysandu ficou 62º lugar numa Terceirona que tinha 64 Clubes.

Dizem que os Clubes do interior tão fazendo por onde. Concordo e discordo ao mesmo tempo. É claro que eles tem lá as suas competências (não vão decidir a final do segundo turno por uma obra do acaso), mas é difícil acreditar que eles tenham uma gestão tão moderna assim, haja visto o caso recente do São Raimundo de Santarém, e do Cametá que teve todas as suas dificuldades administrativas expostas ao final do segundo jogo da semi-final do segundo turno, quando um dos artilheiros do campeonato, Leandro Cearense, colocou a boca no trombone sobre salários atrasados e até possível falta de alimentação, no clube.

Além de adorar fazer gol no Remo, Leandro Cearense
tem personalidade pra cobrar os seus direitos.

Bicolores, vocês tem todo o direito de caçoar da gente. Afinal, são três anos sem um título qualquer, sem divisão, sem esperanças... Mas cuidado, com o futebol medíocre que o time de vocês vem apresentando, ano que vem tem chances de disputar a Quarta Divisão com a gente. E o que é mais intrigante em todo esse processo, é que o maior rival do Clube do Remo há alguns anos não vem mais a ser o Paysandu, e nem o do Paysandu é o Clube do Remo. Nós Azulinos morremos de medo de times como Cametá, Independente Tucuruí e São Raimundo de Santarém, até porque nos últimos 20 Re x Pa's perdemos só um e vencemos mais de dez. Enquanto que o Paysandu morre de medo de equipes como Rio Branco do Acre, Águia de Marabá e Luverdense de Mato Grosso. Enfim, as coisas tão mudando. Jogar só por nome, tradição e torcida não quer mais dizer tanta coisa assim.

Única alegria de Remista nesses tempos é o Re x Play

O que me deixa mais triste não é ser derrotado por um equipe pequena, porque isso acontece com frequência. Vejam só a Copa do Brasil e a Libertadores desse ano: Avaí eliminou o São Paulo; Ceará eliminou o Flamengo, Coritiba eliminou o Palmeiras; Tolima eliminou o Corinthians; Fluminense eliminado pelo Libertad, entre outros. Fico triste é que o Remo tá numa situação muito escrota mesmo, porque ficar 7 meses parados, com uma torcida apaixonada, é ruim para as finanças, porém mais ainda pro orgulho do torcedor, que ultimamente é a única coisa que ainda sustenta esse Clube.

E pensar que sábado eu tava assistindo Barcelona 3 x 1 Manchester United na Globo e na mesma hora passando Cametá 3 x 0 São Raimundo na Cultura. Nem parece o mesmo esporte! São tantas as diferenças grotescas entre a nata e o limbo do futebol mundial... Por isso que eu nem discuto mais com quem é misto (torcedor de time de fora do estado em que vive), continuo achando errado, mas eu vou pedir pra um cara torcer de novo pra um time só ano que vem? É pedir muito.

Pelé já vestiu o manto sagrado. Agora temos que
aguentar os Thiaguinhos e Ratinhos da vida.

Pra terminar, quero dizer que continuo sendo Remista, sempre. E a razão disso é que eu amo o Clube de o Remo, e não os dirigentes e jogadores que são os responsáveis pela vergonha de ontem. E meu sonho continua, que é ver um Re x Pa na primeira divisão do Campeonato Brasileiro (com o Remo ganhando, é claro!)

Abraços, e a encarnação é de livre direito!

Ah, e o campeão não vai ser o Paysandu nem pelo caralho! Cametá ou Independente, o campeão paraense 2011!

quarta-feira, 25 de maio de 2011

Belo Monte é necessária? - Parte III

Olá. Estamos de volta para tratar do assunto hidrelétrica de Belo Monte. Buscamos mostrar no post anterior que há muitos interesses envolvidos nesse projeto, abarcando uma variedade de segmentos do Brasil e do exterior. Também evidenciamos que há alternativas mais baratas e eficientes para gerar a energia que o Brasil precisa sem a necessidade de construir Belo Monte. Então, do ponto de vista técnico, não há razão para erguer a usina. Todavia, o problema não é técnico e sim político e mesmo ideológico.

Vivemos numa sociedade fundada no consumo excessivo e no desperdício. Nossa relação com a natureza é de dominação, de sujeição. Enfim, a vemos como uma coisa que precisa ser domada a qualquer custo. Ocorre que os recursos disponíveis na natureza são finitos. Portanto, somente a mudança profunda do modelo de desenvolvimento será capaz de compatibilizar nossas necessidades com a capacidade da natureza de nos satisfazer.

Lá no fundo é essa concepção dominadora que orienta a construção de centenas, eu disse centenas, de hidrelétricas na Amazônia. De acordo com a lógica dominante, é preciso colocar esta região sob o controle do capital, fazê-la produzir proteinas animal e vegetal em grande quantidade para atender prioritariamente a demanda internacional, gerar energia para os centros econômicos mais importantes do país e exportar recursos naturais (água, madeira e minério, por exemplo) em volume crescente.

A visão que os grupos dominantes têm sobre a nossa região não mudou muito ao longo da história do Brasil: somos vistos como um território despovoado, atrasado e desconectado do restante do país. Então, segundo essa percepção, é preciso que a Amazônia seja ocupada, dominada e integrada ao restante do território nacional - tal como afirma a professora Violeta Loureiro (UFPA). Daí o motivo da retomada da construção de mega-empreendimentos na Amazônia, como Belo Monte.

Além do mais, ao Estado brasileiro e às elites que o controlam interessa garantir que o nosso país se afirme como uma potência regional, que consolide sua hegemonia política, econômica e cultural na América do Sul. E a Amazônia é estratégica para que esse projeto se viabilize.

Nossa região faz fronteira com seis países (Bolívia, Peru, Colômbia, Venezuela, Guiana e Suriname) mais o Departamento Ultramarino da Guiana Francesa (uma colônia francesa, a única nesta parte do continente). Tal situação é vista pelo Estado brasileiro e pelas grandes empresas nacionais e estrangeiras como uma grande oportunidade para a integração econômica sul-americana, à viabilização da livre circulação de mercadorias e de investimentos.

Nessa estratégia é fundamental garantir o controle dos recursos naturais dos países vizinhos por empresas brasileiras, associadas ou não ao capital internacional, e, por outro lado, garantir a circulação de mercadorias brasileiras até os grandes mercados consumidores, como o asiático.

A construção da usina de Belo Monte, assim como de outros grandes empreendimentos (estradas, oleodutos, gasodutos, linhas de transmissão etc.) acabam se constituindo também numa plataforma para a internacionalização de um número cada vez maior de empresas brasileiras que, capitalizadas, entram nos mercados vizinhos adquirindo companhias locais; controlando, assim, parcelas significativas desses mercados. Portanto, a integração que se pretende alcançar com empreendimentos como Belo Monte é fundamentalmente dos mercados. Uma integração entre desiguais, já que as disparidades entre as economias sul-americanas são profundas.

A hidreletrica de Belo Monte, tal como os outros empreendimentos previstos pelo Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) e pela Iniciativa para a Integração da Infraestrutura Regional Sul-Americana (IIRSA), tem o poder de transformar profundamente os territórios onde são instalados: a) a terra é concentrada nas mãos de poucas pessoas e empresas; b) aumenta a pressão sobre as terras indígenas e áreas de preservação; c) ocorre a expulsão de ribeirinhos, extrativistas, agricultores(as) familiares e outros segmentos de suas áreas, aumentando o êxodo para as periferias urbanas; d) o conflito é disseminado pelo território, e; e) instalam-se atividades econômicas fortemente vinculadas ao mercado internacional, entre outras consequências.

A foto acima foi tirada durante o conflito envolvendo trabalhadores(as) da hidrelétrica de Jirau, empresas e polícia, em Rondônia, que se revoltaram contra as péssimas condições de trabalho, parecidas aos do regime de escravidão. Longe de ser um problema amazônico, essa situação foi encontrada em um número expressivo de obras do PAC espalhadas pelo país, inclusive em São Paulo.

Quando falamos de Belo Monte necessariamente estamos nos referindo ao conjunto de questões levantadas nos três posts. Não temos como separar Belo Monte desse contexto. Reafirmamos nossa posição de que essa hidrelétrica não é necessária e que sua construção visa atender tão somente poderosos interesses econômicos e políticos de segmentos do Brasil e do exterior. Não há justificativa para que essa usina seja erguida. Todavia, a decisão, como dissemos, é política e não técnica.


Por fim, uma questão necessita ficar muito clara para todas as pessoas que estão lendo este post: precisamos mudar radicalmente nossos padrões de produção e de consumo. Sem isso, muitas outras Belo Montes serão defendidas e erguidas na nossa região. As consequências desse processo tendem a ser nefastas a todos e todas, morando ou não na Amazônia...

segunda-feira, 9 de maio de 2011

Belo Monte é necessária? - Parte II

No post anterior busquei demonstrar que somente a modernização do sistema de distribuição já seria suficiente para aumentar a oferta de energia elétrica sem a necessidade de Belo Monte.

O professor Osvaldo Sevá, da UNICAMP, fez um levantamento e chegou a seguinte conclusão: se todas as hidrelétricas previstas para serem construídas até 2050 na Amazônia Legal forem efetivamente erguidas, nossa região terá naquela oportunidade cerca de 302 barragens. Isso mesmo: 302! Então, não estamos tratando apenas de Belo Monte e sim de uma estratégia que visa tornar a Amazônia numa província energética. Mas essa energia toda é pra quem? Que interesses serão atendidos? Coisas que você precisa saber:

a) Os países desenvolvidos não querem mais certas indústrias nos seus territórios, como por exemplo as eletrointensivas (o Japão está entre eles). Indústrias eletrointensivas são altamente poluidoras e necessitam de grande quantidade de energia para produzir mercadorias. É o caso, por exemplo, da Albrás (que transforma alumina em alumínio) e da Alunorte (que processa bauxita para a produção de alumínio), aqui em Barcarena. Essas empresas multinacionais são todas voltadas para a exportação, são fortemente subsidiadas (proporcionalmente essas duas empresas pagam menos que um consumidor residencial do Pará pela energia que consome - ou seja, nós bancamos a elevação dos lucros dessas empresas ao pagarmos por uma energia mais cara), geram pouquíssimos empregos, não contribuem para o surgimento de outras empresas (verticalização da produção) e ainda recebem outros beneficios que as fazem pagar menos impostos/tributos (nem o ICMS é cobrado na nossa região e sim em São Paulo ou no Rio de Janeiro; melhor dizendo, nos mercados consumidores). E o que fazem países como o Brasil? Constróem hidrelétricas para oferecer energia barata a fim de que as eletrointensivas - que os países desenvolvidos não querem - venham para cá. Ou seja, aqui ficam os pesados impactos sociais e ambientais e os outros (países ricos, grupos econômicos brasileiros e estrangeiros, as regiões Sul e Sudeste etc.) com os lucros;

b) Os grandes grupos econômicos querem alcançar três objetivos com a construção de hidrelétricas na Amazônia: 1) obter energia barata para aqui se instalarem e para exportar às outras regiões brasileiras; 2) transformar os principais rios amazônicos em hidrovias (Xingu, Tapajós, Teles Pires, Madeira e outros), a fim de que possam receber mega-navios que serão utilizados na exportação de minérios, madeira, soja, carne bovina e outros produtos da Amazônia; 3) favorecer a expansão do agronegócio na nossa região (produção de agrocombustível - dendê e outras oleaginosas - e de celulose, criação de gado e outras atividades);

c) Esse modelo de desenvolvimento tem como um de seus objetivos estratégicos o atendimento das demandas do mercado internacional. Os grandes projetos de infraestrutura na Amazônia são os meios encontrados para garantir o acesso aos recursos naturais da nossa região aos grandes grupos econômicos do Brasil e do exterior. É disso que se trata.
A energia que será produzida na Amazônia é para atender as demandas das regiões do país com economias mais dinâmicas, como o Sul e o Sudeste. E com Belo Monte não será diferente. O que ficar na região será ofertado às grandes empresas, principalmente eletrointensivas;

d) A construção de Belo Monte e de todas as usinas previstas para a Amazônia é de grande interesse de bancos (Santander, Itaú, Bradesco e outros), empresas nacionais e estrangeiras (produtoras de cimento, de turbinas, máquinas e outros equipamentos; siderúrgicas e empreiteiras, para citar algumas), dos fundos de pensão (dos trabalhadores da previdência, do Banco do Brasil, da Caixa Econômica Federal, da Petrobrás, da Vale etc.), dos políticos e de muitos outros segmentos.

Por outro lado, você deve ter em mente um dado muito importante: as empreiteiras estão entre as que mais contribuem para as campanhas eleitorais. Esse é um dos motivos porque a Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) do Congresso Nacional encarregada de investigá-las jamais saiu do papel.

Voltemos a Belo Monte. O governo federal não sabe sequer dizer quanto vai custar a hidrelétrica que, se construída, será a terceira maior do mundo. Ele afirma que serão R$ 19 bilhões, mas as empresas que formaram o consórcio afirmam que custará cerca de R$ 30 bilhões. Imagine quantas campanhas não poderão ser apoiadas, isto sem falar na corrupção que certamente dará o ar de sua graça...

O problema da oferta de energia poderia ser solucionado com a adoção de outras medidas mais baratas e eficientes, entre as quais:

1) Utilizar o bagaço da cana empregada na produção do alcool e do açúcar para gerar energia. Se o bagaço que se joga fora fosse utilizado na produção de energia, seriam milhares de megawats a mais à nossa disposição, bem mais do que será gerado por Belo Monte;

2) Repotencializar as usinas antigas. Ou seja, modernizar as usinas já existentes para que elas gerem mais energia;

3) Investir na produção de energia eólica (gerada pela ação dos ventos). O Brasil possui um enorme potencial ainda inexplorado, necessitando de pesquisas e investimentos para, inclusive, fomentar uma forte industria nacional nesse setor, gerando empregos e conhecimento;

4) Investir na geração de energia solar;

5) Realizar, como ocorre nos países desenvolvidos, um vigoroso e consequente processo de educação sobre o uso sustentável da energia, a ser desenvolvido nas escolas, empresas, nas igrejas; enfim, em diferentes lugares, a fim de conscientizar as pessoas sobre como poupar energia e, ao mesmo tempo, investir na produção de equipamentos/aparelhos mais eficientes no consumo de energia, assim como estimular a construção de casas e prédios que utilizem a energia solar para iluminá-los em grande parte do tempo, ou mesmo aquecer a água durante o inverno... Alternativa é que não falta.

Essas são algumas das soluções. Outras também poderiam ser listadas. Poderíamos gerar muito mais energia para as nossas necessidades atuais e futuras sem gastar esse rio de dinheiro que querem empregar em Belo Monte, ou com as dezenas de hidrelétricas previstas para a Amazônia.

A resposta à pergunta-título do post continua a mesma: Belo Monte não é necessária. E você, concorda com isso?

Vamos concluir esse assunto no próximo post. Falaremos dos impactos sociais e ambientais de Belo Monte, e mostrar porque a Amazônia se tornou estratégica para viabilizar a expansão das empresas brasileiras no mercado internacional, bem como para tornar o Brasil uma potência.